2010-11-28

Mudança

Após seis anos no Blogger chegou a altura da mudança para o Wordpress.

Não só por uma questão de cosmética mas também por razões de integração que para já não são evidentes o Wordpress foi a minha escolha para mudar o Câmara Obscura.

Espero então que me acompanhem em Câmara Obscura.

2010-11-13

The Year’s Best Science Fiction–25th Annual Collection, ed. Gardner Dozois

best_25Este portentoso volume com mais de 600 páginas é a visão de Dozois sobre o género de FC e durante anos foi incontornável como a referência a seguir por quem nutre interesse pela forma curta da FC. No entanto, com novos competidores a surgirem entre eles antologistas do calibre de Jonathan Strahan, Hartwell ou Horton, Dozois começou a perder algum do brilho que tinha. Uma das razões que me leva a pensar que estas colectâneas já não representam tanto o género nem sentem o pulso actual está patente na longa summation do campo em que Dozois, em retrospectiva, falha praticamente todas as previsões acerca de prémios futuros (à data a que escreve) e correntes literárias.

Apesar disso estas colectâneas continuam a ter o seu peso (pun intended) no meio e para quem não tenha nem o tempo, nem a disponibilidade de seguir todas as publicações periódicas anglo-americanas (com algumas de outras latitudes pelo meio), são uma boa forma de se manter em contacto com o que de melhor – e menos bom – se vai escrevendo no género no formato que para alguns estudiosos e entusiastas melhor descreve o género, o conto curto.

A qualidade mediana do volume é algo afectada pela presença entre os 32 contos de pérolas lado a lado com pólvora seca. Dos contos menos interessantes nada direi preferindo apontar o holofote aos que se destacam por uma larga margem da semi-mediocridade dos restantes. Uma nota curioso é que, para a minha sensibilidade a maior parte das pérolas veio da mão de escritoras o que para mim é uma novidade porque até há uns sete, oito anos atrás raras eram as que me cativavam dentro do género.

O primeiro conto na sequência do índice a fazer blip no radar é “Alien Archeology” de Neal Asher a que não deve ser estranho o facto de eu adorar contos sobre artefactos e enigmas alienígenas. Este conto apresenta a marca registrada de Asher na escrita veloz, trepidante e com mais ideias num parágrafo que muitos romances de 400 páginas. É uma verdadeira montanha-russa de emoções e tensão existente no mesmo universo criado pelo autor para as suas famosas novelas.

Logo de imediato vem aquela que é para mim a melhor noveleta de todo o tomo, “The Merchant and the Alchemist’s Gate” de Ted Chiang que com toda a justiça arrebatou os prémios Hugo e Nebula de 2008 para melhor noveleta. Uma história de amor contada em mosaico com toda a amplitude de emoção e num pungente agridoce só possível nos melhores contos as “viagens” no tempo são tratadas não como um fim em si mesmo  para a obtenção fácil seja do que for mas um obstáculo quase uma maldição que pesa sobre os protagonistas. Extremamente bem escrita, duma delicadeza a toda a prova esta noveleta é leitura essencial e altamente recomendável.

“Sanjeev and Robotwallah” de Ian McDonald é outro exemplo da escrita do autor ambientada em locais menos usados dentro da FC. Embora aqui e ali o folclore local pareça dar ares duma certa visão ocidental sob uma realidade que lhe é estranha, McDonald nunca tropeça por inteiro no facilitismo do cliché descrevendo o arco de ascensão e queda dum protagonista que se vê embrenhado numa guerra que adquiriu contornos de videojogo. Interessante e a obrigar a ler River of Gods.

Ler agora “Hellfire at Twilight” de Kage Baker trás a bagagem emocional da morte abrupta da autora que pela amostra tinha ainda muito para oferecer à comunidade. “Hellfire…” é mais um conto da Companhia que em tom ambíguo nos descreve um ritual pagão com as consequências marginais para o agente que se vê deificado sem de tal se aperceber. O conto por sí funciona muito bem na descrição da atmosfera duma Londres do século XVIII com o bónus de oferecer algo mais a quem conheça previamente a “Companhia”.

“Nothing Personal” de Pat Cadigan demonstra que esta senhora ainda tem algo a dizer dentro do sub-género cyberpunk, e em contraste com o outro emir do cyberpunk também presente neste volume, Bruce Sterling, leva-lhe o palmarés do conto mais interessante e melhor estruturado sendo que é conveniente lê-lo com bastante atenção para apanhar todos os fios do novelo algo intrincado que a autora vai tecendo ao longo da narrativa.

“Laws of Survival” de Nancy Kress é um conto duro com uma protagonista que de incialmente impermeável a qualquer emoção além da mera sobrevivência se vai tornando por força da sua pouco usual situação mais humana, e a pouco e pouco revela a fragilidade no cerne do seu coração. Algo previsível mas suficientemente bem escrito para agarrar a atenção este é daqueles contos de fim em aberto que eu tanto aprecio.

“Craters” de Kristine Kathryn Rusch é o último conto duma senhora nesta colectânea pelo que o rácio de contos interessantes definidos pelo sexo dos autores se equilibra igualitariamente. Tempos houve em que se eu conseguisse encontrar um conto duma autora nestas antologias de Dozois que mexesse comigo já podia considerar-me com sorte. Se isso é sinal duma evolução estética e de sensibilidade minha ou demonstra outra coisa é algo que deixo para reflexões futuras. “Craters” está perigosamente perto da realidade actual para se definir como FC mas ainda assim é um estudo de caracterização bastante bem conseguido.

O último conto de interesse para mim vem pela mão de Robert Reed, autor que sempre me cativou. “Roxie” é um pequeno estudo emocional e afectivo da ligação dum escritor com o “melhor amigo do Homem” passado com o cenário de fundo duma potencial catástrofe planetária. Bem mais interessante  e tocante que os mega-efeitos especiais de 2012 ou Impacto Profundo é assim que todos os contos de pré-apocalipse deviam ser: pessoais, íntimos e profundamente emocionais. Recomendado.

Como escrevi no início, Dozois parece ter perdido o pulso do género em que grande parte das escolhas deriva das mesmas fontes. No entanto e curiosamente nas honorable mentions que fecham o tomo demonstra que tem leituras bem mais abrangentes pelo que é pena que não consiga oferecer um espectro mais abrangente de tudo de bom que o género tem hoje para oferecer ao leitor discernente. Pelo que a leitura deste tomo não invalida, para os interessados e apreciadores, uma leitura da «concorrência» na forma dos “best of” de todos os outros antologistas e de Strahan e Hartwell em particular.

2010-11-05

The Walking Dead Book Two, Kirkman, Adlard, Rathburn

walking_dead_2Neste segundo volume hardcover de The Walking Dead que reúne os fascículos #13 a #24, temos dois novos capítulos naquela que se define como “a continuing story of survival horror”. Com esta premissa a lembrar as radionovelas de antigamente, Kirkman e Adlard mostram o dia-a-dia do grupo de sobreviventes que conhecemos dos dois anteriores capítulos desvendando a pouco e pouco a personalidade de cada um bem como as alterações causadas pelo peso dos acontecimentos. Nestes dois novos capítulos a taxa de mortalidade continua elevada com algumas personagens principais e secundárias a encontrarem a morte das mais variadas, e a mais das vezes horrífica, forma mas vamos por partes.

O terceiro capítulo, “Safety Behind Bars” começa onde o anterior terminara. O pequeno grupo de sobreviventes decide instalar-se na prisão mas antes vai ter de proceder a uma limpeza sendo que a cada vez que inicia uma tal operação as munições têm uma quebra significativa. Rick Grimes começa a mostrar o preço que a constante pressão pela sobrevivência tem sobre ele e Lori, pelo seu lado, começa a ter dúvidas acerca da sua relação com ele. Duas personagens secundárias, Chris e Julie porão em curso o seu plano fatal com consequências graves para o pai de Julie que se cruzarão com a queda psicológica de Rick Grimes. Por outro lado Allen começa a mostrar sinais de recuperação embora seja uma recuperação em tons fatídicos.

Neste capítulo são introduzidos quatro novos protagonistas que servirão para despoletar consequências gravosas na pequena comunidade. A presença de quatro ex-prisioneiros servirá para criar um clima de permanente tensão e uma aparente injustiça será o catalisador duma situação insustentável que levará Rick Grimes a contradizer a sua única regra: «You kill, you die».

O traço de Adlard é inconsistente embora a nível de composição seja um mestre. Mas essa mestria não é suficiente para eu sentir a tempos algum amadorismo incompreensível num projecto desta envergadura.

Já o guião de Kirkman começa a mostrar sinais de desenvoltura fugindo aos clichés habituais do género, ao ponto de a certa altura os zombies passarem para segundo plano sendo um fundo panorâmico para um estudo profundo da personalidade humana e da sua muito curiosa característica de trazer sempre ao de cima em situações extremadas ou actos de bravura ou actos de perfídia do mais insidioso possível.

No capítulo quatro, “The Heart's Desire”, somos apresentados a Michonne que viaja com zombies de estimação que vimos a saber mais tarde serem o ex-namorado e o amigo do ex-namorado. Adepta da katana e perita em despachar rápida e eficientemente qualquer zombie que a atrapalhe, Michonne será uma das razões para a crise entre Grimes e Tyreese e para já surge neste capítulo como uma protagonista enigmática que a um tempo consegue ser antipática, e noutro parece querer integrar-se no pequeno grupo. O iminente esgotamento nervoso de Grimes começa a tomar contornos cada vez mais claros assim que os acontecimentos se atropelam após um ataque que deixa Allen incapacitado. Hershel, que Grimes resgatara da quinta, enfrenta os seus próprios dilemas que atingiram o pico nos acontecimentos macabros do capítulo anterior e curiosamente é precisamente no volte-face de Grimes em relação a Allen que Hershel volta a uma proactividade mais salutar. O inevitável confronto que já se vinha a desenhar – passe a piada – entre Tyreese e Grimes tem o seu clímax no final do capítulo sendo que no denouement Grimes é informado da sua despromoção de líder para uma posição igualitária num comité. Neste mesmo final Carol exprime os seus sentimentos por Grimes, enquanto Lori cada vez mais se afasta dele. Uma nova crise adivinha-se em capítulos futuros.

No geral achei este dois capítulos mais ambiciosos a nível de dramatismo humano mas a frio a história pouco evoluiu e alguns dos acontecimentos parecem demasiado deus ex-machinas que apenas servem o enredo ao contrário de ser o enredo a servir-se deles. Exemplo disso é a mudança demasiado radical da personalidade de um dos ex-presidiários bem como o desejo de vingança pouco racional de outro deles. A esta percepção mediana que tenho da série não ajuda que o traço seja demasiado inseguro ao ponto de algumas feições serem quase irreconhecíveis de painel em painel dificultando a minha imersão no universo da série. Para já e se fosse meu hábito dar estrelinhas  de classificação daria duas e meia em cinco a esta série.

2010-10-21

The Walking Dead Book One, Kirkman, Adlard, Rathburn, Moore

walking deadMais do que a luta pela sobrevivência no dia-a-dia dum pequeno grupo de sobreviventes, mais do que o horror inexplicado dos mortos-vivos, mais do que o futuro incerto, o que perpassa ao longo dos dois primeiros capítulos da série em aberto The Walking Dead de Kirkman, Adlard, Moore e Rathburn é a constante angústia da desconfiança daqueles que deviam, em último caso, ser aqueles em quem mais deveríamos confiar.

The Walking Dead, book one, a continuing story of survival horror é uma série mensal de comics e neste hardcover estão reunidos os números de 1 a 12 sendo que cada seis números completam um enredo principal.

Em Days Gone Bye somos apresentados ao protagonista principal da série, o polícia de vilarejo profundo da América Rick Grimes. Mas não se pense que Rick é um parolo tipificado por centenas de filmes ou séries de TV. Este Rick é um homem moderno, com as preocupações normais de um pai de família e que sabe quando as regras devem ser senão quebradas pelo menos moldadas à situação. Tal como ele diz a outro personagem: “I can't think of a better way to 'protect and serve' under ths circumstances.”

Com um início quase tirado a papel químico de 28 Days Later este falso arranque que poderia prometer um pastiche de tantas outras obras de zombies revela-se com o embrenhar no enredo ser uma história plena de emoções, surpresas e choques inesperados, principalmente na morte de personagens pelas quais os autores nos foram nutrindo algum afecto. Kirkman não tem pejo em nos puxar o tapete debaixo dos pés e quando menos esperamos algo de surpreendente acontece.

O preto-e-branco funciona na perfeição ao criar um ambiente tenso, gélido, despido de vida e sensibilidade. Todo este primeiro capítulo serve de introdução às várias personagens mesmo que algumas delas não sobrevivam até ao final do mesmo. É uma história de descoberta, de amizade e traição, de inveja e medo mas acima de tudo é uma história que se centra na desconfiança quase permanente de uns com os outros sendo o catalisador destas emoções os omnipresentes zombies que aqui e num regresso às origens não se movimentam rapidamente e têm uma grande preferência por carne de qualquer tipo, incluindo de cavalo.

No segundo capítulo, Miles Behind Us, com as personagens já bem delineadas somos apresentados a novas personagens e novamente o espectro da desconfiança perturba o pequeno grupo de sobreviventes, adensado pela real possibilidade de o mentor do grupo Rick estar muito perto do ponto de esgotamento nervoso, situação que não é ajudada por dois acontecimentos que podem vir a ser o despoletar duma crise interna. É neste capítulo que sucede para mim aquele que é até ao momento o melhor momento da série passado dentro do condomínio fechado. Um momento pleno de tensão narrado exclusivamente duma forma visual. A apreciar pelos amantes da arte visual narrativa.

Esta edição tem como extras alguns esboços e as capas dos comics originais o que logo a torna uma mais-valia em relação aos trade paperbacks que apenas trazem as histórias originais.

Em conclusão e embora tenha sido merecedora dum Eisner em 2010, para já o arranque da série deixou-me algo morno. Tem bons momentos servidos por diálogos razoáveis mas por vezes as ilustrações deixam algo a desejar, caindo mesmo num traço quase amador e os diálogos tornam-se o calcanhar de Aquiles sobrepondo-se à acção cinética e tornando-se laboriosos em demasia. Esse pequeno defeito é normal em séries que estão a estabelecer um background mas sendo esta uma das séries mais longas vindas dos EUA seria de esperar que tal pudesse ter sido evitado, a menos que Kirkman ignorasse o sucesso e longevidade que a mesma teria. Tenho vontade de conhecer mais deste mundo mas não tanta vontade que me faça ir já a correr encomendar os restantes hardbacks. Naturalmente que estes são os números de 2003-2004 e o Eisner premiou a série pelo conjunto da obra já conhecida em 2010 pelo que tenho esperança que a mesma evolua mais positivamente e que o hype que a rodeia se me justifique nos próximos capítulos.

2010-10-18

Books of Blood volumes one to three, Clive Barker-parte 3

Com o terceiro volume fecha-se este omnibus de Books of Blood. Também nele, à semelhança do anterior, nota-se uma preocupação maior de Barker em delinear as personagens, sendo que num dos contos essa preocupação torna-se central. É um sinal da maturidade do autor a relativa complexidade destes contos e embora pouco se saiba da cronologia da escrita dos mesmos eu arriscaria dizer que a organização dos volumes seguiu uma ordem deliberada de menos complexo/mais chocante para o inverso mais complexo/menos chocante. Tal nota-se a nível de ideias e temas e nota-se a nível de execução. Mas vamos aos contos, um por um.

Son of Celluloid tem uma premissa algo aberrante até mesmo pelos padrões de Barker. Um cancro alimenta-se de emoções projectadas na tela dum velho cinema e ganha consciência e capacidade de projectar ilusões. Uma noite massacra um retardatário e um empregado só não conseguindo mais vítimas por via da intervenção da funcionária da bilheteira. Um conto rápido, brutal, intrigante e com um final memorável. Ainda assim achei-o algo deslocado do conjunto dos contos deste volume, talvez pela ideia ou talvez pela forma como a estrutura do conto se desenrola entre os vários pontos de vista. O termo que mais o define será talvez, bizarro.

Rawhead Rex é um conto que se transmutou na minha memória. O meu primeiro contacto com a estória do conto chegou-me por via do filme realizado por George Pavlou. O filme, que é simplesmente pavoroso no mau sentido e que, nada surpreendentemente foi renegado por Barker, deixou-me com uma pré-indisposição para o texto original. Quando o li pela primeira vez essa má impressão acentuou-se. Mas hoje, com uma releitura em que os horrores da adaptação cinematográfica já mais não são que uma falsa memória, percebo que estava a desconsiderar um muito interessante conto acerca da descaracterização progressiva da Inglaterra rural, tema este que me é caro com a constante invasão do chamado Alentejo profundo por famílias de novos-ricos burgueses que pretendem regressar a um modo de vida rústico, mas assegurando os confortos citadinos. Naturalmente sendo Barker quem é esta alegoria é servida com doses maciças de vísceras, sangue e «baptismo dourado» entre outros requintes de sadismo em que nem a morte de crianças é contornada ou ocultada ao leitor. Um conto de tamanho considerável que poderá não ser do agrado de toda a gente mas que ultrapassada alguma renitência inicial tem muito para oferecer ao leitor mais capaz de ler nas entrelinhas.

Confessions of a (Pornographer's) Shroud é um conto que ressoa na mente. Um dos meus preferidos deste volume não tanto pelo tema em si ou até pela forma algo banal como está escrito mas antes porque adoro estórias de vingança em que o maltratado consegue levar a justiça pelas próprias mãos a quem a merece. Barker cria tensão pelo facto de o vaso que encerra o espírito ser, nada mais, nada menos, que o manto que cobria o cadáver da vítima. E esse manto não consegue manter a anima por muito tempo, perdendo a fluidez e as formas a cada hora que passa. É, portanto, uma vingança contra-relógio que aqui se relata com os habituais pormenores e apontamentos sádico-humorísticos do autor.

Scape-goats e Human Remains são os dois melhores contos do volume encerrando com chave de ouro.

Em Scape-goats dois casais ficam atolados numa estranha ilha. Este é o conto onde a caracterização ganha predominância sobre tudo o mais. Um estudo interessante sobre os processos da loucura, do egoísmo e da luxúria – e é importante aqui frisar que o nome da embarcação onde os dois casais navegavam é um piscar de olho a esta luxúria - o conto serve de metáfora sobre a vida e a morte e a dicotomia que a nossa civilização imprime nos rituais de enterro e da memória dos que ficam pelos que partiram. O final mostra-nos uma protagonista que transfigurou-se noutro estado de existência e encerra com um parágrafo onde o tom poético-surreal de Barker atinge um quase estado sublimar de graça: “The sea has long since washed the plate clean of its leavings. Angela, the “Emmanuelle,” and Jonathan, are gone. Only we drowned belong here, face up, under the stones, soothed by the rhythm of tiny waves and the absurd incomprehension of sheep.”

Human Remains é um conto de doppelgänger onde o jovem protagonista, hedonista, narcisista e indiferente a toda e qualquer emoção vai enfrentar uma imagem que a pouco e pouco lhe rouba o aspecto, a alma e por fim cria de raiz as emoções que nunca sentiu. Despido e vazio, nada mais que uma casca humana, o protagonista arrasta-se pela cidade indiferente ao seu destino. Um texto fortíssimo, quer no relato cru e nu da prostituição masculina, quer na caracterização dum protagonista a todos os tempos antipático, deixa o leitor embrenhado numa espiral de surrealismo e bizarria que a espaços relembra o melhor de Kafka no tratamento da usurpação da identidade.

Nas edições norte-americanas os três seguintes volumes foram editados separadamente com títulos diferentes não tendo, até à data, uma edição omnibus como estes tiveram. São no entanto volumes que encerram contos importantes na bibliografia barkeriana e a seu tempo conto poder disponibilizar aqui as minhas impressões sobre os mesmos. Até lá recomendo sem reservas a leitura destes três volumes iniciais por todos os aficionados do Horror com letra maiúscula bem como por aqueles que se atrevem a procurar leituras que os levem a interrogar-se sobre o Mundo, a Humanidade, a Mortalidade e tudo o mais nos entrementes.

2010-10-17

Fanzine Fénix – lançamento

fénix_0 Surge em meados de Outubro, em lançamento na Tertúlia BBdE, o n.º 0 duma nova fanzine.

Fénix é editada por Álvaro de Sousa Holstein que já deu provas noutras décadas tendo estado ao leme da Nebulosa e tem cinco curtos contos e duas crónicas.

Entre os colaboradores temos nomes como João de Mancelos e Roberto Mendes de mistura com outros menos conhecidos como Regina Catarino e Joel Puga.

No interior encontra-se a divertida separata Pumba! com 'Tudo o que quer saber acerca do fandom'.

Votos de felicidade para a nova publicação e que possa crescer e tornar-se referência no pequeno meio nacional de Fantasia, FC e Horror.

Jornal Conto Fantástico n.ºs 1 e 2 Junho/Julho 2010

jornal-capaO Jornal Conto Fantástico é uma nova publicação dedicada exclusivamente a autores nacionais editada por Flávio Mendes e dirigida por Roberto Mendes, nome já ligado a outros projectos interessantes do meio Fantástico português.

Este número chega-nos às mãos ainda algo experimental, quer na concepção onde se notam algumas falhas como a falta de identificação dos autores no início de cada texto, quer na quantidade de gralhas ao longo da mesma, quer na distribuição/publicidade que entre a opção pela compra na net, ou a compra numa loja única faz com que, à partida, apenas um pequeno segmento do potencial mercado se aperceba da existência da mesma. É uma questão perene neste tipo de publicações que só com o crescimento e maturidade do mercado poderá ser sanada.

De seguida irei fazer uma apreciação do conteúdo da mesma seguindo a ordem pelo qual surge na revista.

Mutação Final de João Rogaciano tem como ideia subjacente a alteração do Homem para se adaptar a ambientes hostis algo que relembra de imediato Man Plus de Pohl, sendo o twist final mais típico de um Dick, condimentado com laivos de fanfic trekiana.


No fundo é uma boa ideia muito mal explorada, executada e apresentada. Frases como "Estes cientistas, oportunamente naturalizados portugueses (medida copiada daquela que, três séculos antes, no início do sec. XXI, permitira que jogadores brasileiros jogassem pela então selecção Portuguesa de futebol) (...)" tiram-me por completo do contexto, parecem chamar estúpido ao leitor já que linhas acima se dizia estarmos no século XXIII e penso que qualquer pessoa sabe fazer contas, e ainda por cima vêem com nota de rodapé. Aliás todo o texto é polvilhado por notas de rodapé perfeitamente dispensáveis.

Como referi é uma boa ideia mas que se fica pelas intenções. Talvez o espartilho do máximo de 4 páginas A4 imposto pela editora não tenha deixado o autor elaborar mais o conto. Talvez. De qualquer forma mesmo dando o benefício da dúvida, Rogaciano deveria ler alguns contos de FC modernos (se é que já não o fez) e tirar conclusões sob a forma de expor ideias. Este tipo de prosa já caiu em desuso desde a década de 70.

Memórias da Ficção Científica de Álvaro de Sousa Holstein, é uma breve crónica que utiliza o título do seu blogue pessoal e por breve digo que é mesmo curta. Nela Holstein relembra a Nebulosa, extinto fanzine da década de 80 mas centra-se mais nas agruras da produção dum fanzine do que propriamente na história da mesma sendo que apenas pela biografia que acompanha o texto - e que é quase tão longa quanto o texto principal- ficamos a saber que a fanzine que mereceu um prémio europeu.


Perde-se assim a oportunidade de conhecer mais da história da Nebulosa, como, por exemplo, quem foram os principais colaboradores, quantos números foram editados, qual a tiragem média e outros pormenores que fazem a delícia de quem se interessa por estas coisas.

Verdade seja dita que o autor da crónica se disponibiliza nos comentários do seu blogue a dar mais pormenores sobre os variados posts lá presentes pelo que uma visita ao mesmo será de considerar pelos entusiastas e curiosos. Fica então aqui o endereço de Memórias da Ficão Científica a visitar.

No resto a crónica, que é o que neste momento se analisa, ficou a saber a pouco.

Thalormis Zeta de Carla Ribeiro. A premissa do conto pareceu-me algo absurda. Sempre me pareceram incongruentes os contos em que se abandona o planeta por falta de condições de habitabilidade indo estabelecer colónias noutro planeta, neste caso Marte. Ou seja, será que o processo de terraformação ou de criação de colónias é assim tão mais fácil noutro planeta do que no nosso? E que tipo de gestão e estratégia é a do general antagonista que ao primeiro precalço desiste logo da ideia para voltar-se para aquela que seria a mais racional e económica? Isto já para não dizer que o general, mesmo sabendo do roubo ocorrido num laboratório dele parece sentir-se intrigado com o fim da colónia experimental. São estes pequenos/grandes buracos de argumento que tornam o conto menos interessante, na minha opinião, mais ainda quando são falhas que facilmente poderiam ser corrigidas.

Por outro lado achei que em termos de caracterização o conto corria a dois tempos. Cecília é uma personagem mais bem trabalhada e verosímil que Bruno, embora o seu destino final carecesse de maior elaboração. Aliás alguém que preze tanto assim a vida, incluindo a dos inimigos, escolheria aquele destino? Algumas cenas de Bruno deixaram-me a pensar que a autora tem pouco ou nenhum conhecimento dos reais métodos de interrogatórios, já para não falar do modo de vida em comuna de resistência armada. Seria plausível que um interrogador/torturador anunciasse ao cativo que “Depois começo a fazer-te coisas cruéis.”? Assim, dito desta forma que mais parece que está a falar num jardim-de-infância? Ou que momentos mais tarde após a anuência do torturado em contar tudo se lhe apresentasse com o nome e o cargo como se fossem dois desconhecidos acabados de se encontrar? Isto já passando de lado a necessidade da infodump dada pelo Bruno ao capturado falando de coisas que o capturado já sabia de antemão.

Já conhecia a escrita de Carla Ribeiro de outros contos e sempre a achei rebuscada e dada a longas figuras metafóricas e/ou alegóricas, uma escrita quase barroca no mau sentido. Apesar disso neste conto a sua escrita está mais contida mas ainda assim falta que a sua evidente capacidade para escrever seja condimentada por uma boa trama, pensada e racionalizada para superar as falhas de lógica que são por demais evidentes em textos deste tamanho. Com um pouco mais de edição poderíamos ter um razoável conto mas tal como está apresenta-se fraco.
A nível técnico encontrei várias falhas de edição que nalguns casos até tornavam o sentido das frases impenetrável como por exemplo na página 13 no primeiro parágrafo onde se lê: "(...) semi-obscuridade da vida subterrânea, adaptados, depois de mais de demasiado tempo na obscura sombra dos subterâneos (...)".

Space Oddity de Regina Catarino. É uma vinheta que tal como o título aponta passa por oddity. Bem estruturada em termos de ritmo deixa um travo doce-amargo na boca. Como a despedida dum amigo. Gostei.

A entrevista a João Barreiros será interessante para quem seja novato nas andanças do fandom de fantástico nacional. Para quem, como eu, já o conhece há uma trintena de anos o discurso continua, com umas nuances aqui e acolá, a ser igual. O que pode ser visto de duas formas: ou Barreiros cristalizou na percepção que tem das coisas ou as coisas, de facto, não evoluíram nada. Aliás nas palavras dele até regrediram. Lê-se com agrado mais que não seja pelo humor sarcástico e cínico que envolve a visão do autor sobre o que o rodeia.


A rubrica Memórias da Ficção Científica regressa recordando Romeu de Melo. Muito mais interessante que a anterior, nesta percebe-se o quanto a figura do filósofo e autor de FC marcou Holstein pelo tom saudoso com que evoca o amigo.

Para os mesmo novatos que acima referi em relação à entrevista a Barreiros este texto é imprescindível num tempo em que a memória recua apenas, na melhor das hipóteses, até aos anos 80 e onde tudo é visto como grande novidade e grande audácia quando, afinal, já outros, com meios mais parcos mostraram saber fazê-lo.

Cometas Extintos é o primeiro conto da revista que leio com um background real de sci-fi, mesmo que seja uma sci-fi que me lembra mais a série Halo da Microsoft/Bungie que o Endymion de Dan Simmons. Gostei de algumas ideias como a dos fatos simbióticos - a provar que a FC é também a literatura das ideias -, e gostei do enredo que embora previsível continha na génese uma lógica interna muito mais apurada que, por exemplo, o conto da Carla ou a confusão geral do texto do Rogaciano. Não irei aqui desvendar qual o ponto principal do plot porque estragaria a surpresa mas basta pensar que milhentas incursões militares usaram já em tempos esta mesma táctica. No fundo um conto curtinho mas com maturidade suficiente para se destacar do conjunto dos seus pares neste número. Foi uma agradável surpresa conhecer o Pedro Pedroso a escrever neste género e tenho pena de não ter sido eu o primeiro editor dele.

Alenian de Marcelina Gama Leandro é um conto com uma premissa interessante, razoavelmente bem escrito embora aqui e ali mais algum tempo dado ao descrever dos locais ajudasse o leitor a «conceber o espaço», mas que falha estruturalmente ao acabar abruptamente como se a autora se tivesse enfadado do conto. Talvez refém do pouco espaço autorizado pelo editor a verdade é que o conto precisava de mais espaço para respirar e assim como está pareceu-me mais um estudo para algo mais elaborado onde teria uma primeira parte e duas secções já quase completas mas uma parte final, e cena de desenlace demasiado em suspenso. Um aspecto a melhorar pela autora, sendo que apesar disso este conto e o do Pedro Pedroso foram, no conjunto, os dois melhores da revista.


A revista fecha com uma entrevista a Afonso Cruz, autor de Enciclopédia da Estória Universal e Livros que Devoraram o Meu Pai. É uma entrevista que mostra um autor lúcido, ciente das limitações do nosso meio mas convicto de que há que meter mãos à obra na divulgação da literacia. Apreciei e é um autor que terei debaixo de olho já que as suas opiniões despertaram-me ainda mais interesse - que já me vinha de várias boas críticas à sua Enciclopédia..., em blogues como o Rascunhos - em lê-lo.

2010-10-11

Books of Blood volumes one to three, Clive Barker–parte 2

Um dos aspectos mais notórios do segundo volume de Books of Blood é o amadurecimento de Barker no tratamento das personagens. Nestes contos, ao contrário do primeiro volume, a caracterização ganha contornos mais complexos e a trama deixa de ser o alfa e ómega do texto para ser apenas o motor das acções que definem os protagonistas. Por outro lado alguns dos temas caros ao escritor e que mais tarde são tratados em profundidade nos seus romances – e num dos casos, numa noveleta - despontam aqui pela primeira vez. Verdade seja dita que já no primeiro volume se tinham sentido alguns ecos dessas preocupações temáticas mas estavam demasiado difusos no som e na fúria do impacto pretendido que me pareceu ser o de chocar pelo choque per se.

Assim o conto que abre este segundo volume, Dread, preocupa-se em estabelecer um background para os protagonistas. Embora Barker tente definir os medos que os assolam e que, inevitavelmente, conduzem ao desfecho fatalista, a impressão que fica é que Barker sente-se pouco à vontade com essa construção, ao contrário de, por exemplo, um Stephen King que é exímio em nos mostrar todo o passado das suas personagens duma forma que soa familiar aos nossos sentidos. Barker pelo contrário tem a mão algo pesada ainda e Dread acaba por ser uma boa ideia desperdiçada numa tentativa de construção de fobias que soa forçada e apressada. Destaco, no entanto, a cena de Steve nos dormitórios sociais, que dão um vislumbre de Barker no seu melhor de evocação de atmosferas degradantes.

Hell's Event, o conto seguinte, é mais uma variação do mito faustiano que Barker trabalhou duma forma muito mais complexa em The Damnation Game. Talvez a melhor surpresa do conto venha do facto de aquele que supomos ser o protagonista principal perecer enquanto o underdog ganha o dia. E claro, o final sangrento que aguarda Gregory, o Fausto de serviço, que demasiado tarde percebe que há consequências mais graves que a mera perda de algumas extremidades para quem pactua com o Nono Círculo.

Um dos melhores contos deste volume é Jacqueline Ess: Her Will and Testament. Curiosamente recordo-me que quando o li pela primeira vez desgostei imenso o que só prova que cada leitura tem a sua idade certa. Ou então que cada leitor pode retirar vários prazeres da mesma leitura, desde que, como o Vinho do Porto, deixe as histórias amadurecerem, mesmo que, de facto, quem amadureça seja, ao fim e ao cabo, o leitor.

Neste conto vemos algumas das sementes do que viria a ser The Hellbound Heart, nomeadamente no redesenhar, refluir e reprojectar da carne, do músculo, do tendão e do osso, que ficaram, graças às macabras maquilhagens para o filme Hellraiser, para sempre como a imagem de marca de Barker. Mais ainda é um conto onde o grotesco se alia ao sensual, a dor é uma fina fronteira para o prazer e toda uma aura sexual permeia o texto. Ao contrário de alguns críticos que consideram Barker como tendo a subtileza dum elefante no que toca à descrição do acto sexual, eu vejo uma poesia tenebrosa nos parágrafos finais deste conto, que de certa maneira provam que Barker é sensível às mais subtis variações e cambiantes de luz e sombra para sempre entrelaçados numa dança eterna, ora leiam: “Her keen breasts pricked him like arrows; his erection, sharpened by her thought, killed her in return with his only thrust. Tangled in a wash of love they thought themselves extinguished, and were.

Outside, the hard world mourned on, the chatter of buyers and sellers continuing through the night. Eventually indifference and fatigue claimed even the eagerest merchant. Inside and out there was a healing silence: an end to losses and to gains.”

O segundo melhor conto do volume aparece em The Skins of the Fathers, uma variação do termo religioso, the sins of the fathers. O título em si é ambíguo. De que pais se fala? Dos primordiais? Do falso pai de Aaron cujo nome, relembra o narrador, significa 'exalted one'? Dos pais que ora são vistos como monstros pela populaça de Welcome, Arizona, ora são descritos pelo narrador como seres superiores, talvez até anjos/alienígenas, últimos representantes de primevas raças ancestrais? A dúvida é deixada no ar por Barker tornando este conto uma alegoria para a evolução da Humanidade e a incessante intolerância do Homem. Curiosamente são duas personagens femininas as catalisadoras de grande parte da acção no conto, sendo que Barker, decerto pretendeu demonstrar que embora sendo a figura feminina uma criação anterior ao homem, nem mesmo assim deixaria de estar contaminada pela vivência continuada.

Também neste conto se notam as sementes de tantos outros romances e noveletas posteriores, como Cabal ou ainda The Great and Secret Show, onde os monstros, os diferentes e os marginais são retratados como raças à parte com os seus mitos próprios, os seus rituais e as suas crenças, todas com tanto direito a existirem quanto as nossas. Trata-se no fundo da eterna oposição entre o que percebemos como o Bem e o Mal, sendo ambas as abstracções dependentes e relativas ao ponto de vista de cada um.

O volume encerra com New Murders in the Rue Morgue que para mim pareceu mais um exercício de estilo que um conto de Barker propriamente. Embora aqui e ali se sinta o toque na criação de ambiência decadente de Barker as raízes deste conto estão na homage a Poe que acaba por delimitar a temática e o tratamento estilístico duma forma demasiado acentuada. Como desvio mais que aparente do habitual no autor temos o facto de este preferir como protagonista um homem de setenta e três anos mas a quem ao longo de todo o conto não consegue imprimir a necessária verosimilhança deixando no leitor uma impressão de que se trata de alguém bem mais novo e flexível. Um conto algo incaracterístico na produção barkeriana.