O Jornal Conto Fantástico é uma nova publicação dedicada exclusivamente a autores nacionais editada por Flávio Mendes e dirigida por Roberto Mendes, nome já ligado a outros projectos interessantes do meio Fantástico português.
Este número chega-nos às mãos ainda algo experimental, quer na concepção onde se notam algumas falhas como a falta de identificação dos autores no início de cada texto, quer na quantidade de gralhas ao longo da mesma, quer na distribuição/publicidade que entre a opção pela compra na net, ou a compra numa loja única faz com que, à partida, apenas um pequeno segmento do potencial mercado se aperceba da existência da mesma. É uma questão perene neste tipo de publicações que só com o crescimento e maturidade do mercado poderá ser sanada.
De seguida irei fazer uma apreciação do conteúdo da mesma seguindo a ordem pelo qual surge na revista.
Mutação Final de João Rogaciano tem como ideia subjacente a alteração do Homem para se adaptar a ambientes hostis algo que relembra de imediato Man Plus de Pohl, sendo o twist final mais típico de um Dick, condimentado com laivos de fanfic trekiana.
No fundo é uma boa ideia muito mal explorada, executada e apresentada. Frases como "Estes cientistas, oportunamente naturalizados portugueses (medida copiada daquela que, três séculos antes, no início do sec. XXI, permitira que jogadores brasileiros jogassem pela então selecção Portuguesa de futebol) (...)" tiram-me por completo do contexto, parecem chamar estúpido ao leitor já que linhas acima se dizia estarmos no século XXIII e penso que qualquer pessoa sabe fazer contas, e ainda por cima vêem com nota de rodapé. Aliás todo o texto é polvilhado por notas de rodapé perfeitamente dispensáveis.
Como referi é uma boa ideia mas que se fica pelas intenções. Talvez o espartilho do máximo de 4 páginas A4 imposto pela editora não tenha deixado o autor elaborar mais o conto. Talvez. De qualquer forma mesmo dando o benefício da dúvida, Rogaciano deveria ler alguns contos de FC modernos (se é que já não o fez) e tirar conclusões sob a forma de expor ideias. Este tipo de prosa já caiu em desuso desde a década de 70.
Memórias da Ficção Científica de Álvaro de Sousa Holstein, é uma breve crónica que utiliza o título do seu blogue pessoal e por breve digo que é mesmo curta. Nela Holstein relembra a Nebulosa, extinto fanzine da década de 80 mas centra-se mais nas agruras da produção dum fanzine do que propriamente na história da mesma sendo que apenas pela biografia que acompanha o texto - e que é quase tão longa quanto o texto principal- ficamos a saber que a fanzine que mereceu um prémio europeu.
Perde-se assim a oportunidade de conhecer mais da história da Nebulosa, como, por exemplo, quem foram os principais colaboradores, quantos números foram editados, qual a tiragem média e outros pormenores que fazem a delícia de quem se interessa por estas coisas.
Verdade seja dita que o autor da crónica se disponibiliza nos comentários do seu blogue a dar mais pormenores sobre os variados posts lá presentes pelo que uma visita ao mesmo será de considerar pelos entusiastas e curiosos. Fica então aqui o endereço de Memórias da Ficão Científica a visitar.
No resto a crónica, que é o que neste momento se analisa, ficou a saber a pouco.
Thalormis Zeta de Carla Ribeiro. A premissa do conto pareceu-me algo absurda. Sempre me pareceram incongruentes os contos em que se abandona o planeta por falta de condições de habitabilidade indo estabelecer colónias noutro planeta, neste caso Marte. Ou seja, será que o processo de terraformação ou de criação de colónias é assim tão mais fácil noutro planeta do que no nosso? E que tipo de gestão e estratégia é a do general antagonista que ao primeiro precalço desiste logo da ideia para voltar-se para aquela que seria a mais racional e económica? Isto já para não dizer que o general, mesmo sabendo do roubo ocorrido num laboratório dele parece sentir-se intrigado com o fim da colónia experimental. São estes pequenos/grandes buracos de argumento que tornam o conto menos interessante, na minha opinião, mais ainda quando são falhas que facilmente poderiam ser corrigidas.
Por outro lado achei que em termos de caracterização o conto corria a dois tempos. Cecília é uma personagem mais bem trabalhada e verosímil que Bruno, embora o seu destino final carecesse de maior elaboração. Aliás alguém que preze tanto assim a vida, incluindo a dos inimigos, escolheria aquele destino? Algumas cenas de Bruno deixaram-me a pensar que a autora tem pouco ou nenhum conhecimento dos reais métodos de interrogatórios, já para não falar do modo de vida em comuna de resistência armada. Seria plausível que um interrogador/torturador anunciasse ao cativo que “Depois começo a fazer-te coisas cruéis.”? Assim, dito desta forma que mais parece que está a falar num jardim-de-infância? Ou que momentos mais tarde após a anuência do torturado em contar tudo se lhe apresentasse com o nome e o cargo como se fossem dois desconhecidos acabados de se encontrar? Isto já passando de lado a necessidade da infodump dada pelo Bruno ao capturado falando de coisas que o capturado já sabia de antemão.
Já conhecia a escrita de Carla Ribeiro de outros contos e sempre a achei rebuscada e dada a longas figuras metafóricas e/ou alegóricas, uma escrita quase barroca no mau sentido. Apesar disso neste conto a sua escrita está mais contida mas ainda assim falta que a sua evidente capacidade para escrever seja condimentada por uma boa trama, pensada e racionalizada para superar as falhas de lógica que são por demais evidentes em textos deste tamanho. Com um pouco mais de edição poderíamos ter um razoável conto mas tal como está apresenta-se fraco.
A nível técnico encontrei várias falhas de edição que nalguns casos até tornavam o sentido das frases impenetrável como por exemplo na página 13 no primeiro parágrafo onde se lê: "(...) semi-obscuridade da vida subterrânea, adaptados, depois de mais de demasiado tempo na obscura sombra dos subterâneos (...)".
Space Oddity de Regina Catarino. É uma vinheta que tal como o título aponta passa por oddity. Bem estruturada em termos de ritmo deixa um travo doce-amargo na boca. Como a despedida dum amigo. Gostei.
A entrevista a João Barreiros será interessante para quem seja novato nas andanças do fandom de fantástico nacional. Para quem, como eu, já o conhece há uma trintena de anos o discurso continua, com umas nuances aqui e acolá, a ser igual. O que pode ser visto de duas formas: ou Barreiros cristalizou na percepção que tem das coisas ou as coisas, de facto, não evoluíram nada. Aliás nas palavras dele até regrediram. Lê-se com agrado mais que não seja pelo humor sarcástico e cínico que envolve a visão do autor sobre o que o rodeia.
A rubrica Memórias da Ficção Científica regressa recordando Romeu de Melo. Muito mais interessante que a anterior, nesta percebe-se o quanto a figura do filósofo e autor de FC marcou Holstein pelo tom saudoso com que evoca o amigo.
Para os mesmo novatos que acima referi em relação à entrevista a Barreiros este texto é imprescindível num tempo em que a memória recua apenas, na melhor das hipóteses, até aos anos 80 e onde tudo é visto como grande novidade e grande audácia quando, afinal, já outros, com meios mais parcos mostraram saber fazê-lo.
Cometas Extintos é o primeiro conto da revista que leio com um background real de sci-fi, mesmo que seja uma sci-fi que me lembra mais a série Halo da Microsoft/Bungie que o Endymion de Dan Simmons. Gostei de algumas ideias como a dos fatos simbióticos - a provar que a FC é também a literatura das ideias -, e gostei do enredo que embora previsível continha na génese uma lógica interna muito mais apurada que, por exemplo, o conto da Carla ou a confusão geral do texto do Rogaciano. Não irei aqui desvendar qual o ponto principal do plot porque estragaria a surpresa mas basta pensar que milhentas incursões militares usaram já em tempos esta mesma táctica. No fundo um conto curtinho mas com maturidade suficiente para se destacar do conjunto dos seus pares neste número. Foi uma agradável surpresa conhecer o Pedro Pedroso a escrever neste género e tenho pena de não ter sido eu o primeiro editor dele.
Alenian de Marcelina Gama Leandro é um conto com uma premissa interessante, razoavelmente bem escrito embora aqui e ali mais algum tempo dado ao descrever dos locais ajudasse o leitor a «conceber o espaço», mas que falha estruturalmente ao acabar abruptamente como se a autora se tivesse enfadado do conto. Talvez refém do pouco espaço autorizado pelo editor a verdade é que o conto precisava de mais espaço para respirar e assim como está pareceu-me mais um estudo para algo mais elaborado onde teria uma primeira parte e duas secções já quase completas mas uma parte final, e cena de desenlace demasiado em suspenso. Um aspecto a melhorar pela autora, sendo que apesar disso este conto e o do Pedro Pedroso foram, no conjunto, os dois melhores da revista.
A revista fecha com uma entrevista a Afonso Cruz, autor de Enciclopédia da Estória Universal e Livros que Devoraram o Meu Pai. É uma entrevista que mostra um autor lúcido, ciente das limitações do nosso meio mas convicto de que há que meter mãos à obra na divulgação da literacia. Apreciei e é um autor que terei debaixo de olho já que as suas opiniões despertaram-me ainda mais interesse - que já me vinha de várias boas críticas à sua Enciclopédia..., em blogues como o Rascunhos - em lê-lo.